domingo, 28 de novembro de 2010

"Não encontrar os amigos com os quais convivi lá, foi frustrante, durante muito tempo"


Mais um agregado (vindo de outra diocese) nos brinda com sua história de vida.

Ele se auto define como um conjunto de interrogações, mas forneceu respostas precisas, detalhadas e emocionantes.

É mais um que valoriza a convivência com os colegas e as amizades construídas  durante sua passagem pelos seminários que frequentou.


E sabem qual é sua recordação mais marcante do ex-SIC? Uma pista: esporte. Os detalhes vocês precisarão ler sua entrevista para saber.
  • Quando entrou para o ex-SIC?
1959, no 5º ano; em 1960 fiz o 6º ano; foram os em que lá estive, advindo da diocese de Petrópolis, onde entrei em 1954, junto com Júlio Guimarães de Almeida (falecido ) e Marcondes Rosa de Sousa (morando hoje em Fortaleza, entrevista de 12/06/2010).
  • De que cidade/paróquia?
Duque de Caxias, Baixada Fluminense, da paróquia de S. Antônio, centro.
  • Por que entrou para o seminário?
Desde cedo, levado por minha mãe, encantavam-me luzes, ritos, vestes, na igreja; com 11 e 12 anos era coroinha. Apareceu lá, à procura de vocações, o então reitor do seminário de Petrópolis (era dezembro); em janeiro estava dentro.
  • Quantos anos tinha quando entrou?
18, no ex-SIC. 13, em Petrópolis.
  • Quando saiu do ex-SIC?
No final de 1960 (saímos os três); sozinho, recebi a batina no 08 de Dezembro. Saí do seminário maior em Março de 1962
  • Quantos anos tinha quando saiu?
17, 19, 21, respectivamente.
  • Por que saiu do seminário?
Um acúmulo de fatores; entre eles: fé arrefecida; desânimo em tarefas evangelizadoras; discordância no "modus faciendi" em algumas questões; uma paixãozinha por uma ex-colega de infância...
  • O que aprendeu no ex-SIC?
Mais do que o fator intelectual, os fatores morais: retidão de caráter; responsabilidade; honestidade; valorização do outro; senso do dever; coerência entre pensar e agir...
  • O que faltou aprender?
A vida ensinou: respeito aos diversos pensamentos e convicções; não ser o dono da verdade (aliás, eu poderia ser definido como um conjunto de interrogações); consciência da necessidade do trabalho...Nossa educação era um tanto afastada da realidade (não tínhamos maldade alguma; até hoje resta algum resquício disto...).
  • O que fez depois que saiu? Estudou o quê?
Fui para o magistério em cursos e escolas das cidades da baixada fluminense.
  • Qual sua trajetória profissional após a saída do ex-SIC?
Fiz o serviço militar com 22 anos (63/64). Saí e tive autorização pª lecionar; de 66 a 69 fiz português-literatura, na Gama Filho; formado, trabalhei no ensino público e particular até me aposentar no ano passado, tendo feito pós-graduação em linguística em 89.
  • Trabalha ainda?
Agora sou dono do meu tempo, andando à procura de quem disse que aposentadoria leva à depressão (para rir na/da cara dela)...
  • Casou? Tem filhos? Netos?
Comecei a namorar Vilma em 66 (fora minha aluna em 62); casamos em 67; Valéria nasceu em 68 e é solteira até agora; ela foi criada com um casal de primos; a menina nos deu um sobrinho-neto (13 anos), o garoto...desgarrou-se no mundo...sei da existência de três filhos; faleceu em abril último com 39 anos. Há ainda o André, um ex-colega da Val (nossa filha). Ele estava sozinho velando o corpo de sua mãe na capela; só Vilma compareceu e com ele ficou; tinha 30 anos então. Nos adotou como pais a partir daí. É muito chegado a nós e carinhoso. Seu filho Gabriel (10 anos) nos trata de VÔ e VÓ. São 43 anos de casamento...
  • Quais as recordações mais marcantes do tempo de ex-SIC?
As melhores são esportivas. Entrei logo na seleção de futebol. No 1º semestre jogávamos com roto uniforme são paulino; estreamos o azul e branco no 2º (presenteado p/Sr Luís (ver fotos). Até o final de 60 ganhamos 19 jogos, perdemos três (2 p/ o seminário maior de Aparecida-4x2 e 4x3), nenhum empate. Há pouco o Fuzaro me classificou de "motorzinho"...O time: Osmar; Moraes, Butti, Fuzaro e Nereu; Pe. Vanin, Cardin (o Mataruna p/alguns), Paulista (Ruiz Valverde); Paulistinha (Zé Dias Valverde), Naves e Paco (Espanhol)... Entravam: Nadai, Vicentim, Maróstica...Ming era um alto e bom 2º goleiro. De certa feita o Pe. Vanin nos leu, no refeitório, matéria de um jornal sobre um jogo contra nós, elogiando os jogadores locais, mas sem evitar a derrota para o brilhante time do seminário (5x2 )... Dormindo, continuo dando os meus chutes...
Outros fatos: Espetáculo de marionetes (Adorno lembrou-se também) -Concerto de acordeon por Paolo Gandolfi -Teatro e apresentação musical em Americana (onde estará o pianista Ricardo?) -A orquestra feminina de cordas com 80 violões de escola (NORMAL?) campineira...Todas as meninas de branco, com seus instrumentos a tiracolo...LINDO! - As atividades acadêmicas.
  • Cite um personagem com quem conviveu na época e que o impressionou positiva ou negativamente.
Pe. Vanin: contacto direto e diário. O apreço e estima levou-me a encontrá-lo em Matão, por onde passei para abraçá-lo, quando em viagem pelo interior paulista, há uns 10 anos.
  • Sobrou alguma mágoa? Qual?
Não; porém não encontrar os amigos com os quais convivi lá, foi frustrante, durante muito tempo.
  • Se voltasse no tempo iria novamente para o ex-SIC? Por que?
A única forma de voltar no tempo são as recordações... Foi um belo período de vida, cuja valorização é posterior, como soe acontecer.
  • Quais as principais mudanças que a entrada (e/ou saída) do seminário provocou em você?
Fui privilegiado. O que me tornei ou consegui está tudo construído em cima daquela formação que, como filho de pessoas pobres, não teria. A amizade de vocês é outra riqueza notável!
  • Se dedica à Igreja Católica atualmente?
Quando me perguntam isto, digo que tenho formação católica. Afastei-me da prática, não da essência. Passei por grande drama de consciência na criação dos filhos, neste aspecto (Se não dava o exemplo, como fazer?). Deixei-os na mão de Deus.
  • Qual sua relação com a religião atualmente?
Julgo que nossas ações nos (re)ligam ou (des)ligam de Deus. Méritos e deméritos serão levados ao "post-mortem". Sabemos o maior dos mandamentos, é só colocá-lo em prática. DELE espero a misericórdia de um pai...
  • Como você compara a sua religiosidade daquela época com a atual?
Se se pudesse ver as conturbações internas, não teria sido escolhido presidente da Congregação Mariana. A frase "Senhor, eu não sou digno" marcou-me profundamente (deixei de participar da comunhão eucarística). Claro que vocação...Combalida a fé, seguiram-se anos de dúvidas, procuras, estudos...Nada novo; tudo incertezas. Evitando fundamentalismos, foi de bom alvitre, pelo menos, (con)viver com os ensinamentos morais adquiridos. No passado era pura aceitação, agora...(A fé não é um dom?...) Como disse ao Aloísio: fico feliz pelo amigo que encontra a paz de espírito em sua religião...Feliz pelo Fuzaro e Conceição...
  • Como você compara a Igreja Católica daquela época com a atual?
Vivi a época de João XXIII, voltado para o social. Seus sucessores retroagiram em relação à tal abertura, e as mudanças: a passo de tartaruga, em contraponto às da sociedade moderna, com novos conhecimentos e mudanças vertiginosas. Existe o jogo: prudência x atualização, e seus respectivos torcedores.
  • O que você acha dos reencontros com os ex-colegas do ex-SIC?
Que pergunta, heim? Isto já está nas entrelinhas acima! A iniciativa do Grego foi maravilhosa! Joguemo-lo para o alto! Ele entrou para a história!
  • Alguma sugestão?
Sim, talvez advinda dos 43 encontros dos antigos alunos do seminário de Petrópolis, feitos lá, no último final de semana de julho. Sou o coordenador do Rio-Baixada, uma das diversas regiões, que têm suas datas próprias de encontro. CONSEGUIR O COMPROMETIMENTO DA DIOCESE, DO ATUAL REITOR, DO SEMINÁRIO, com os nossos encontros. Perceba-se que eles são hoje o que nós fomos ontem, e eles serão amanhã o que nós somos hoje...Em S. Paulo há uma "célula" ex-SIC; outras cidades poderiam fazer o mesmo.
  • Qual pergunta você gostaria de ter respondido e que não foi feita?
Há empenho nosso em tentar contactar ex-SIC?
Do longínquo Rio de Janeiro encontrei e fui encontrado! Vanin, Fuzaro, Severino, Marcondes...
  • Há algum outro endereço na internet que tenha mais informações sobre você? Algum "link" que você queira divulgar?
O Aloísio me encontrou no ORKUT (mesmo e-mail). Coloco-me à disposição através dos número de telefone que estão na lista de contatos do ex-SIC. Meus préstimos à disposição de todos.
  • Alguma mensagem especial aos outros ex-SIC?
Agradeço por voltarem a fazer parte da minha vida, contemporâneos ou não. Valorizem os dias dos encontros, porque sua presença é valorizada por muitos!

Sebastião Mataruna Cardin

A valorização dos encontros com os colegas ele traduz em coordenação de um grupo deles. Espero que mais colegas aceitem sua sugestão de formar mais "células" de ex-SIC, além da "Pizza do Paierão", em São Paulo.

Aproveitem comentar este e outros temas abordados pelo Cardin. Só lembrando que, caso comentem como "anônimo", identifiquem-se, por favor. 

Semana que vem tem mais...


J. Reinaldo Rocha (62-67)

4 comentários:

  1. Querido Sebastião

    Para sintetizar meu conceito:

    Você representa: amizade sincera, personalidadde marcante, presença necessária,
    Agradeço a Deus pela sua existência e a você pela consideração, pela amizade e pela saudade constante. Tenho no meu coração indeletáveis lembranças da nossa convivência, de nossos encontros e da sua visita ao meu reino encantado. Sua entrevista é nota 1000.

    Aloisio

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  2. Aí, seu Matarunaaaaa! Eu gosto sempre de ler as entrevistas, cuidadosamente, sem dar uma espiadinha no final para ver quem é e, assim o fiz, achando que não seria você! Claro, no começo estava até certo de que era você, mas com muita artimanha, falando dos integrantes da seleção( Como o Seminário jogava bonito!)você citou tanta gente querida e que aflora na minha mente à medida que vou lendo, mas você citou também o Sebastião Mataruna Cardim. Então...Parece um sonho, não é? Um sonho bom, mas que deixou rastros de luz que ainda continua iluminando as nossas mentes.
    Você é um filósofo e o filósofo questiona sempre e desse questionamento a mente vai se purificando de tantos conceitos relativos, não é mesmo?
    Foi um prazer, Mataruna, ler sua entrevista. Dou-lhe a nota máxima, a mesma do Aluízio, MIL.
    Um abraço caloroso com os votos de um santo e feliz Natal, e aquela paz tão querida para o Rio de Janeiro.
    Lúcio

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  3. Caro Sebastião,
    Como o Lúcio, procuro ler cuidadosamente as entrevistas dos ex seminaristas, contemporâneos ou não, sem cair na tentação de olhar ao final de quem se trata.
    Você merece toda a admiração da minha parte por todas as suas colocações, abrindo seu coração quanto aos anseios, dúvidas e crises.
    Não o vi jogar (entrei no ano seguinte à sua saída) mas torci muito pelo Moraes, Butti, Pe. Vanin e Nereu, remanescentes dos timaços de que fêz parte.
    A avaliação feita pelos nossos colegas Aluízio e Lúcio, caro Sebastião, dando-lhe nota MIL, tenho certeza que transcende ao teor de suas respostas, até encontrar o que você representa na vida deles.
    Parabéns pelas respostas e pelas páginas belas que ajudou a escrever da história do nosso querido seminário.
    José Fernando Crivellari
    fernando.crivellari@ig.com.br

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  4. Mataruna é o CARA. Sempre presente mesmo vindo de longe. É o tipo que valoriza as coisas que anda vivendo e pelo mundo afora. Foi visitar o Marcondes no Ceará, o Vanin em Matão... Ficou pouco no SIC mas deixou muitas marcas... Abç Grego

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